quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre a tal comissão da verdade.

A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou. Cada um recolhe um pedaço
e diz que toda verdade está naquele caco."           
(Provérbio iraniano)
         
Teresópolis, 5 de outubro de 2011.
         
         Corria em mim a cândida idade de nove anos incompletos, quando estourou o contragolpe, a revolução ou o golpe de 1964. Seja qual nome adotado, nada tive a ver com o movimento, contra ou a favor. Como já possuo um passivo de 56 anos, creio que a maioria do povo brasileiro hoje em dia também não fora responsável direto pelos acontecimentos que culminaram no evento, nem tampouco tem a ver com as suas consequências, notadamente a luta armada ou a guerra oficial contra ela, empreendidas entre 1968 e 1975.
         Isso posto, é preciso notar que o regime militar terminou em 1985, após 20 anos de ditadura, embora o período de transição de José Sarney (1985-1989) tenha sido ainda tutelado pelas Forças Armadas, época ainda prenhe de explicações por parte de bons historiadores.
         Quando tinha 34 anos pude, enfim, resgatar minha cidadania e votar para presidente da República, após amargar, como quase todo mundo a tristeza de, anos antes, ver falecido o doce movimento das Diretas-Já, que, em 1984, procurou transformar pacificamente nosso precário sistema eleitoral de eleições indiretas.
         Hoje vivemos um regime democrático regular, mas eis que o governo atual pretende revolver o passado para recuperar o sentido histórico do que foi perdido nas franjas do tempo, remexendo em feridas que pareciam sepultadas pela velha lei da Anistia (1979).
         A Anistia valeu, como confirmou há pouco tempo o Supremo Tribunal Federal, mas a militância de esquerda não se deu por vencida: deseja revolver o que foi sepultado para trazer à tona o que até hoje ficou equívoco e sem melhor explicação.
         Como nada tenho a ver com o período, sei que houve mortos de lado a lado, torturadores, torturados, vítimas e assassinos a sangue-frio. A guerra oficial foi vencida pelo Estado, cujos proprietários e ideólogos da ocasião eram os militares e seus prepostos tecnocratas. Hoje, ao converso, os manipuladores do governo são de outra ideologia e propagam, com toda a convicção, que praticam agora a democracia e os direitos humanos.
         Querem nos convencer – aos que nada têm a ver com o bololô – que militares de direita torturaram e massacraram à vontade inocentes ativistas anti-ditadura que eram “apenas” democratas e meros agentes dos direitos humanos. Essa é muito boa!
         Esse estratagema de linguagem é grave, porque pressupõe uma reação extremista de um lado e moderada do outro, como se houvesse excessos de um lado só. O outro era o da facção vitimada e trucidada, com raras exceções, entre as quais a nossa “presidenta”, que nos governa...
         Ora, se é comissão da “verdade”, não se pode aceitar que ela esteja apenas de um lado, porque, senão, não haveria querelas. Ocorre que existem arquivos históricos confiáveis de que houve luta armada, guerrilha, sequestros e assassinatos perpetrados pela esquerda radical, que gostaria de ver instaurado no país um regime parecido com o de Cuba, que, então, estava na moda...
         Vários próceres do atual governo, inclusive, foram treinados na ilha dos Castro, retornando ao país com objetivos de retomada do poder pela força, compondo células e aparelhos, na tentativa de subverter a ditadura de direita.
         Para os de esquerda, os militares subvertiam a ordem que pretendiam instaurar, isto é, uma república proletário-sindical, à semelhança de Cuba e da extinta União Soviética; para os militantes da direita, os que foram para a clandestinidade, os banidos e os cassados representavam a massa de manobra que pretendia desfigurar a Pátria, mediante um regime comunista e ateu...
         No meio dessa sopa conflitante e ideológica nós, o povo, assistíamos a tudo, tocando o nosso dia a dia, opinando e silenciando de acordo com a conveniência cidadã de gente mal-informada ou sempre cientificada pela metade do que estava acontecendo.
         Agora, após tantos anos, os dois lados preparam-se para nova guerra, açulando os mais portentosos argumentos de parte a parte. Os cadáveres da esquerda e da direita ressurgirão, revigorados, trazendo raiva e estupor para uma sociedade de massas, entorpecida pela mídia e amedrontada no seu dia-a-dia sob violência difusa e insegurança.
         Pobre povo brasileiro, que não pode andar para a frente nem merecer o futuro! Abrirão a tampa do caldeirão e as bruxas surgirão, de parte a parte, com seus sortilégios noturnos. Poucos ganharão as reparações de guerra, um conflito em que a maioria absoluta da nação não lutou ou viveu qualquer envolvimento direto ou indireto.
         A pantomima desenvolver-se-á em meio a eleições, sendo bucha de canhão para aproveitadores, assim como se diz dos mensalões, também objeto de conflito e que sabemos não darão em nada em nossa Justiça capenga, lerda e elitista.
         Os caquinhos da verdade pertencem a dois grupos, em luta eterna, e que não mais representam os interesses do povo brasileiro. Os queixosos de injustiças – nós vamos ver – serão calados por maçarocas de dinheiro sangradas dos contribuintes e voltarão para suas casas, aburguesados, para criar os filhos, os netos e seguir a vida.
         Na verdade, a melhor coisa de que me lembro do período militar foi de uma música do Chico Buarque, em que ele implorava intensamente: “chamem o ladrão, chamem o ladrão!”. Parece que deu certo a veemência do ilustre compositor: os ladrões foram chamados e, hoje, no governo atual, estão todos aqui...
*Texto por Waldo Luís Viana, escritor, economista, poeta e não usufrui hoje de boquinhas nem do Estado aparelhado, assim como ontem não foi agraciado com cargos nem comendas...

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